Setor automotivo enfrenta o desafio de elevar a presença de colaboradores negros

Encontro da Rede AB Diversidade discutiu a baixa variedade racial nas organizações do segmento NATÁLIA SCARABOTTO, PARA AB


No Brasil, a falta de sensibilidade de grandes empresas em olhar para o nicho de produtos e serviços voltados para negros e a ausência de representação desse público dentro das companhias impacta o resultado das organizações e impulsiona o empreendedorismo negro. Este foi o tema da discussão do encontro de junho da Rede AB Diversidade, espaço de troca e construção de soluções para tornar a indústria automotiva mais diversa e, em consequência, mais inovadora, rentável e com impacto positivo na sociedade. A iniciativa conta com 30 empresas-membro e conta com o apoio da ONU Mulheres.

A falta de diversidade racial é um dos grandes desafios do segmento. Segundo a pesquisa Liderança do Setor Automotivo, não há nenhuma pessoas negra em cargo de alta gestão (diretoria, vice-presidência e presidência) nas empresas automotivas no Brasil. Na média gestão (gerência e coordenação) o cenário não melhora muito: a participação deste grupo é de apenas 1%.

Os resultados do setor são ainda mais preocupantes do que os da economia nacional como um todo. De acordo com o estudo Perfil social, racial e de gênero nas 500 maiores empresas do Brasil e suas ações afirmativas, do Instituto Ethos, as pessoas negras ocupam apenas 6,3% das posições de gerência dentro das empresas, número que cai para 4,7% quando se trata da alta gestão.

A APOSTA DA BASF PELA DIVERSIDADE

A pouca representatividade desse público nas grandes empresas é um dos fatores que estimula o consumidor a buscar serviços e produtos de empreendedores negros. Em 2017, este mercado movimentou R$ 1,7 trilhão na economia do país, de acordo com o Instituto Locomotiva.

Apesar dos desafios, o setor automotivo já tem bons exemplos de movimentações nesta área. A Basf é um deles: a companhia criou o BIG (Black Inclusion Group). A analista sênior de projetos da companhia, Yasmin Porto, diz que é uma ação que fala tanto com o público externo, quanto com os colaboradores e as lideranças.

“Promovemos ações de educação continuada, recrutamos talentos negros em parceria com a Faculdade Zumbi dos Palmares e temos um programa de mentoria. Trabalhamos em todas as frentes para que o colaborador negro sinta que pertence à empresa e não queira sair”, conta.

SEM ESPAÇO NAS GRANDES EMPRESAS, TALENTOS NEGROS APOSTAM NO EMPREENDEDORISMO

Enquanto as grandes empresas não trazem representatividade da população brasileira, que é composta por 54% de pessoas negras, o empreendedorismo acolhe a diversidade racial. Esta população já responde por 51% dos empresários do Brasil, de acordo com uma pesquisa da Global Entrepreneurship Monitor de 2017 em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

Para incentivar o surgimento de uma abordagem voltada à tecnologia nestes empreendimentos e promover a ascensão econômica da população negra existem iniciativas como a BlackRocks. A empresa acelera startups em fase inicial com potencial de alto impacto, oferece programa de formação de novos líderes, especialização profissional em tecnologia e laboratório de inovação para o desenvolvimento de novas ideias.

“Acreditamos que existe um potencial das pessoas negras e que elas precisam de oportunidades para mostrar e alavancar suas ideias inovadoras”, afirma Maitê Lourenço, fundadora da BlackRocks.

A aceleradora também realiza eventos sobre tecnologia e inovação para profissionais negros, além de contar com 55 mentores em diversas áreas para fomentar os novos empreendimentos. Maitê enfatiza que o alto potencial da população negra já ganha impulso com o projeto – um movimento no qual a indústria automotiva deveria prestar atenção em busca de novos talentos.

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