O que faz da Islândia e de Ruanda países tão igualitários?



Brasil, por outro lado, ocupa a 90ª posição do ranking do Fórum Econômico Mundial

O Fórum Econômico Mundial divulga anualmente o índice de igualdade de gênero, que classifica 144 países de acordo com as condições sociais para homens e mulheres. Para chegar na pontuação final são considerados aspectos como saúde, sobrevivência, participação e oportunidade econômica, realização educacional e empoderamento político de homens e mulheres. Para nossa tristeza, o Brasil caiu nove posições e ficou com o 90o lugar em 2017. Os maiores impactos para as mulheres do país são: - Falta de representatividade na esfera política. - Diferença salarial: a renda média das mulheres corresponde a 58% da remuneração dos homens. O Brasil também ficou atrás de diversos vizinhos latino-americanos como a Argentina, Chile, Colômbia, México, Peru e Uruguai. Apesar da performance fraca, o Brasil se destacou positivamente ao diminuir a diferença de gênero na saúde e na educação. As mulheres têm estudado mais do que os homens. Os cinco países com maior igualdade de gênero são: Islândia, seguido por Noruega em 2o lugar, Finlândia em 3o, Ruanda em 4o lugar e Suécia em 5o colocação. Os três primeiros são países nórdicos conhecidos por suas políticas igualitárias. Mas você notou a Ruanda em 4º lugar? O país africano tem pouco mais de 11 milhões de habitantes e, em 1994 sofreu um genocídio, quando extremistas mataram mais de 800 mil pessoas e estupraram 500 mil mulheres. Depois desta barbárie, o país vem se reconstruindo e o governo tem empoderado as mulheres, encorajando-as a assumir papéis no setor político e econômico. Ruanda é o primeiro país do mundo a ter maioria feminina no parlamento: 61,3% dos assentos estão ocupados por elas. Para efeito de comparação, a média mundial é de 21,9%> No Brasil este número é ainda mais baixo: temos apenas 10,7% das cadeiras do legislativo ocupadas por mulheres. Na Constituição de 2003 Ruanda estabeleceu igualdade de gêneros na educação, na economia, na posse de terras e inseriu 30% de cotas no parlamento e, assim, conseguiu aumentar o número de mulheres na política e chegar a resultados tão bons. A nação também criou conselhos locais exclusivamente femininos que cuidam de assuntos como educação, saúde e segurança pessoal. Elas ocupam diversos postos de decisão, dando grande contribuição à política e economia do país.

COMO FUNCIONA O PAÍS MAIS IGUALITÁRIO DO MUNDO

Já a Islândia é o melhor país do mundo para as mulheres viverem e tem um dos maiores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do planeta. Tudo começou no dia 24 de outubro de 1975 com uma greve feminina. As islandesas se recusaram a trabalhar, cozinhar, limpar e até mesmo cuidar dos filhos. O objetivo da paralisação era destacar a força produtiva feminina e fazer um apelo para que os homens as respeitassem e para que ganhassem os mesmos salários que eles. No dia da greve, 90% delas pararam de trabalhar e de fazer as tarefas domésticas. Com isso, os homens puderam experimentar as dificuldades cotidianas das mulheres e se conscientizaram sobre a necessidade de um equilíbrio entre direitos, salários e compartilhamento de funções. Em 1980, a primeira presidente mulher da Europa foi eleita na Islândia, Vigdís Finnbogadóttir. Este fato teve um efeito profundo naquela geração. Ter uma mulher na esfera de maior poder, à frente de uma nação, quebrou diversos paradigmas e fortaleceu a Islândia. E isto repercute até os dias de hoje. Desde 2000 o país oferece licença parental de nove meses remunerados (80% do salário). As mulheres saem os primeiros três meses, os homens os próximos três meses, e o trimestre seguinte pode ser compartilhado como eles quiserem. Noventa por cento dos homens saem de licença. Assim eles exercem a paternidade, cuidam das crianças e aprendem a compartilhar a jornada de trabalho com suas parceiras. As mulheres na Islândia são extremamente qualificadas, e muitas ocupam cargos de alta liderança. Elas não abrem mão de suas carreiras para terem filhos: elas fazem as duas coisas, trabalham e cuidam dos filhos. Em 2009 a primeira ministra islandesa, Johanna Sigurdardottir, foi a primeira chefe de Estado do mundo assumidamente lésbica. No final de 2017, a Islândia ganhou sua segunda primeira ministra, Katrín Jakobsdóttir, mãe de três filhos pequenos, com 41 anos de idade. Em janeiro de 2018, o país tornou-se o primeiro do mundo a fazer com que as empresas provem que estão pagando salários iguais para homens e mulheres. Portanto é ilegal oferecer remuneração mais alta a homens que exerçam as mesmas funções das mulheres. As empresas estão correndo contra o tempo para cumprir com a nova lei e evitar multas. Nossa maior lição com a Islândia é que o compartilhamento de tarefas entre os gêneros permite que elas tenham ascensão na carreira. A segunda lição é a importância de role models, modelos de mulheres em todas as escalas de poder para inspirar e incentivar outras mulheres. A terceira lição é a importância de leis e ações afirmativas que busquem a igualdade de gênero. Cristina Kerr é especialista em diversidade e equidade de gênero e CEO da CKZ Diversidade. Formada em Publicidade e Propaganda pela FAAP com MBA na FGV em Gestão Estratégica e Econômica de Negócios, Pós-MBA em Formação de Conselheiras pela Saint Paul Escola de Negócios, cursa mestrado em Sustentabilidade na FGV.


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